REPORTAGEM
Operário morre intoxicado ao tentar salvar colegas em Pelotas-RS
Dois homens que limpavam reservatório entraram em coma.
Um operário
morreu e outros dois entraram em coma, ontem pela manhã, em
Pelotas, depois de desmaiar dentro de um tanque com substâncias
tóxicas. O acidente ocorreu por volta das 10h40min, na indústria
de óleos vegetais Irgovel.
Segundo o Corpo
de Bombeiros, Gilnei Maia do Nascimento, 34 anos, e Ormélio
Cardoso Melo, 65 anos, limpavam o reservatório quando sentiram
um mal-estar e perderam os sentidos. Com sete metros de altura, o
tanque tinha o fundo coberto por uma camada com 60 centímetros
de uma pasta negra, pegajosa e que exalava mau cheiro.
Outro operário,
Luís Carlos Mesquita, 48 anos, entrou para salvar os colegas
e também desmaiou.
Resgatado com
vida pelos bombeiros, ele morreu enquanto recebia os primeiros socorros,
ainda no pátio da empresa. O caso será investigado a
partir de hoje pela 3ª Delegacia da Polícia Civil de Pelotas,
que pretende apurar as circunstâncias do acidente e apontar
as responsabilidades.
Nascimento e Cardoso
foram levados para o Pronto Socorro Municipal e, em seguida, transferidos
para as UTIs de dois outros hospitais da cidade.
Até o final
da tarde, eles respiravam por aparelhos, e o estado de saúde
era considerado gravíssimo.
- A situação
é muito delicada, e o prognóstico, péssimo -
avaliou a médica
Mônica Mendes, que prestou o primeiro atendimento.
A operação
de resgate mobilizou funcionários da Irgovel, bombeiros, enfermeiros
da prefeitura e uma equipe médica da Ecosul, empresa concessionária
das rodovias da região.
Quando os bombeiros
chegaram à indústria, Mesquita já estava sendo
içado pelos colegas, mas as cordas resvalaram no corpo dele
- coberto pela pasta negra - e o operário despencou no interior
do reservatório.
Socorristas passaram
mal e foram atendidos
Um bombeiro entrou
no tanque e ficou segurando a cabeça de Nascimento e de Melo
para que eles não mergulhassem na substância enquanto
Mesquita era socorrido. Os três foram resgatados inconscientes
e receberam soro e oxigênio ainda no local.
- Fiz uma aspiração
das vias aéreas e de dentro de um deles saiu uma graxa preta
que parecia petróleo - conta o médico da Ecosul César
Valiati.
O sargento do
Corpo de Bombeiros Elínio Lourenço, o soldado Marcos
Figueira e o auxiliar de enfermagem Márcio Guerreiro se sentiram
mal após o resgate e precisaram ser atendidos no Pronto Socorro.
Eles foram submetidos a exames de Raio X nos pulmões e inalaram
oxigênio por 15 minutos.
- Saí de
lá com uma dor de cabeça muito forte. O cheiro era insuportável
e
aquela borra grudava na gente - lembra Guerreiro.
Armadilha: o tanque, de sete metros de altura, tinha o fundo coberto
por uma pasta negra, que exalava mau cheiro.
Empresa investiga
o caso
Até então
249 dias sem registrar acidentes de trabalho, a Irgovel abriu ontem
uma sindicância para apurar as causas da intoxicação
em três operários da empresa.
Segundo o advogado
Rodrigo Buriol, poucas horas antes de os funcionários entrarem
no tanque um técnico em segurança do trabalho teria
examinado o local e registrado a inexistência de gases tóxicos.
- Ninguém
sabe o que aconteceu, já que esse é um procedimento
rotineiro na indústria, e os três estavam acostumados
com o serviço - diz Buriol.
O advogado garante
que os operários usavam equipamento de segurança.
Segundo ele, o
tanque é utilizado como depósito de resíduos
orgânicos, cuja retirada é feita periodicamente com bombas
de sucção.
- Quando as bombas
não conseguem mais sugar, a limpeza da última camada
é feita manualmente - explica.